Entre Oxum e Iemanjá, Salvador vive dois dias de devoção às águas
Doutora em Antropologia e líder religioso explicam origens e significados dos rituais no Dique do Tororó e Rio Vermelho
Antes que o mar do Rio Vermelho receba milhares de oferendas no dia 2 de fevereiro, Salvador inicia, na noite anterior, um rito menos visível ao grande público, mas fundamental para a compreensão das religiões de matriz africana. No dia 1º, o Dique do Tororó se transforma em espaço ritual para o Sórodó, a entrega de presentes a Oxum, orixá das águas doces.
A sequência não é apenas cronológica. Do ponto de vista simbólico, o culto estabelece uma hierarquia das águas na qual o doce antecede o salgado e os rios precedem o mar. Oxum, associada às nascentes, à fertilidade e à circulação da vida, é reverenciada antes de Iemanjá, divindade ligada às águas profundas, à maternidade e ao acolhimento.
O cortejo parte do Terreiro Olufanjá (Ilê Axê Iyà Olufandê), no bairro do Beiru, e segue até o Dique do Tororó, onde, à meia-noite, ocorre a entrega do presente. Embora a devoção a Oxum seja ancestral no candomblé, a manifestação pública do Sórodó no Dique se fortaleceu sobretudo nas últimas décadas, acompanhando um movimento mais amplo de reafirmação das religiões afro-brasileiras no espaço urbano.
O Dique do Tororó, hoje cartão-postal da cidade, ocupa um território historicamente atravessado por terreiros, práticas rituais e relações simbólicas com as águas doces, o que reforça seu papel como espaço de memória religiosa em Salvador.
Para o babalorixá e antropólogo Dr. Rodney William de Oxóssi, sacerdote do Ilê Obá Ketu Axé Omi Nla, a entrega de Oxum anteceder a Festa de Iemanjá expressa uma lógica profunda do culto às águas.
“Dentro do mar tem rio. É dizer que todas as águas se encontram e se completam. Oxum e Iemanjá são divindades muito próximas, consideradas filha e mãe. Uma é jovem, a outra é mais velha”, afirma.
Segundo ele, agradar uma divindade ignorando a outra rompe a harmonia simbólica do sistema religioso. “Nunca se deve agradar Iemanjá e esquecer de Oxum ou vice-versa. O que se evoca é a amplitude das águas e a potência que o rio alcança ao desembocar no mar”, explica.
Rodney avalia ainda que o crescimento do Sórodó está diretamente ligado a processos de resistência religiosa.
“Os ataques, a demonização e a perseguição também instigaram uma organização maior do povo de terreiro para responder e contrapor o discurso racista. A festa não cresceu à toa. Foi uma estratégia extremamente eficiente.”
No dia seguinte, o foco se desloca para o bairro do Rio Vermelho, onde acontece o tradicional Dia de Iemanjá, uma das maiores celebrações públicas dedicadas a um orixá no Brasil. Documentos e estudos históricos indicam que a origem da entrega de presentes a Iemanjá teve início na década de 1920, quando pescadores da região passaram a ofertar objetos simbolicos à divindade em meio a um período de escassez de peixes, buscando proteção e fartura para o trabalho no mar.
Para a jornalista e doutora em Antropologia Cleidiana Ramos, a Festa de Iemanjá possui características que a diferenciam das demais festas de largo do calendário soteropolitano.
“É uma celebração organizada por uma corporação de ofício. Quem organiza a festa e realiza o rito principal são os pescadores”, explica, referindo-se à Colônia de Pesca Z1 do Rio Vermelho.
Segundo Cleidiana, a transformação da festa ao longo do tempo não representa perda de sentido, mas vitalidade. “Quanto mais a festa muda, mais ativa é a sua dinâmica de continuidade”, afirma. Após um período de esvaziamento nos anos 1990, a celebração ganhou novo fôlego nos últimos 15 anos, com maior presença de jovens e ampliação da visibilidade midiática.
Ao analisar o alcance da festa, a doutora em antropologia destaca que o culto às águas em Salvador dialoga com diferentes referências culturais. O que ajuda a compreender a ampla popularidade da Festa de Iemanjá:
“Há uma presença forte do culto à mãe d’água, que dialoga com divindades indígenas, como Iara, e com imagens europeias, como sereias”, observa.
Apesar das múltiplas representações construídas ao longo do tempo, Iemanjá não é uma sereia. Trata-se de um orixá de origem africana e fundamentos próprios dentro das religiões de matriz afro-brasileira.
Essa distinção é central para compreender a força da festa. “Não é uma festa ortodoxa, mas também não é folclore. Todo mundo ali se sente à vontade — quem é do candomblé, quem não é, quem é católico, evangélico ou sem religião”, explica.
Em 2022, a Festa de Iemanjá foi reconhecida oficialmente como Patrimônio Cultural de Salvador. Ao conectar o Sórodó, dedicado a Oxum, e a celebração de Iemanjá em um mesmo percurso ritual, a cidade reafirma uma cosmologia viva, na qual água doce e salgada, território e memória seguem organizando a experiência coletiva.
Mais do que eventos isolados, os dias 1º e 2 de fevereiro revelam como Salvador atualiza, ano após ano, um sistema simbólico que atravessa séculos — e no qual fé, resistência e identidade continuam fluindo entre o rio e o mar.