Embargo da União Europeia à carne brasileira não deve aliviar preço no supermercado
Especialista avalia que redução das exportações para o bloco não será suficiente para derrubar preços da carne no mercado brasileiro
A suspensão das importações de carne bovina e outros produtos de origem animal do Brasil pela União Europeia, iniciada nesta quinta-feira (3), não deve provocar redução significativa no preço da carne para o consumidor brasileiro. A avaliação é do analista Fernando Enrique Iglesias, da Safras & Mercado.
Segundo o especialista, o mercado europeu representa uma parcela pequena das exportações brasileiras de carne bovina. Em 2025, a União Europeia respondeu por 3,7% do volume exportado pelo Brasil e 5,8% do valor das vendas, de acordo com dados do Ministério da Agricultura.
Por isso, mesmo com a suspensão das vendas para os 27 países do bloco, a quantidade de carne que poderia ser redirecionada ao mercado interno não seria suficiente para pressionar os preços para baixo.
“É pouquíssimo provável que isso aconteça”, afirmou Iglesias ao avaliar a possibilidade de o churrasco ficar mais barato no Brasil.
Cortes nobres também não devem ter redução
Entre os produtos brasileiros comercializados com a União Europeia estão cortes como filé mignon, contrafilé, alcatra e coxão mole, além do filé de costela.
Apesar da suspensão europeia, a tendência apontada pelo analista é de manutenção da pressão sobre os preços, inclusive dos cortes considerados nobres.
Na prévia da inflação de agosto, as carnes acumulavam alta de 8,53%, segundo o IBGE. O filé mignon registrava aumento de 15,2%, enquanto o contrafilé havia subido 11,5%.
Para Iglesias, os preços podem continuar avançando até o final do ano, principalmente devido ao aumento das exportações e à menor disponibilidade de gado para abate.
China deve aumentar demanda pela carne brasileira
Outro fator que pode impedir uma queda nos preços é a retomada das exportações brasileiras para a China.
O país asiático estabeleceu para 2026 uma cota de 1,1 milhão de toneladas de carne bovina brasileira. Dentro desse limite, incide uma tarifa de 12%. Para volumes acima da cota, a tarifa adicional chega a 55%.
Houve uma forte aceleração dos embarques brasileiros até junho, mas as exportações perderam ritmo a partir de julho. A expectativa, entretanto, é de retomada nos últimos meses do ano.
Isso ocorre porque a carne embarcada entre novembro e dezembro pode chegar aos portos chineses somente em 2027, devido ao tempo de transporte, estimado entre 45 e 60 dias.
Além disso, o Brasil atravessa uma fase de menor oferta de bovinos para abate, conhecida como baixa do ciclo pecuário. Com menos animais disponíveis e demanda externa elevada, a tendência é de maior pressão sobre os preços internos.
Embargo também atinge frango, suínos, mel e ovos
A decisão da União Europeia não se restringe à carne bovina. A suspensão também alcança produtos brasileiros como frango, carne suína, mel, pescados e ovos.
A medida foi anunciada em maio, depois que a União Europeia retirou o Brasil da lista de países considerados em conformidade com as regras do bloco para utilização de antimicrobianos na produção animal.
Segundo as informações divulgadas, a decisão não foi tomada por causa de irregularidades encontradas nos produtos brasileiros, mas pela avaliação europeia de que os mecanismos brasileiros de controle sobre essas substâncias são insuficientes.
O embargo pode ser revisto após negociações entre o governo brasileiro e a União Europeia. O bloco realiza atualmente uma auditoria nas cadeias produtivas de frango e mel no Brasil, com conclusão prevista para esta sexta-feira (4). O resultado ainda será analisado pelas autoridades europeias.
Setor agrícola europeu apoia suspensão
Representantes do agronegócio brasileiro classificaram a medida como protecionista. A decisão ocorreu pouco depois da entrada em vigor do acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul, que enfrenta resistência de produtores europeus preocupados com a concorrência de produtos sul-americanos.
Enquanto o Brasil teve as exportações suspensas, Argentina, Paraguai e Uruguai continuam autorizados a vender carne para o mercado europeu.
Na quarta-feira (2), a Confederação Italiana de Agricultores (Cia-Agricoltori Italiani) manifestou apoio ao bloqueio das carnes brasileiras. Para a entidade, a Europa deve garantir condições consideradas iguais entre produtores para evitar prejuízos às empresas do continente.