“Monitoramento é a palavra da vez”, afirma psicóloga sobre a era digital para crianças e adolescentes
O impacto do ambiente digital sobre a saúde mental de crianças e adolescentes foi abordado durante o programa Se Ligue Bahia, da Rádio Itapoan, nesta segunda-feira (5). A psicóloga e psicopedagoga Naiara Abreu participou da edição que também abordou o lançamento do livro “Aconteceu com Minha Filha – Uma história real sobre os abismos sombrios da internet”, obra com a história real de um pai que salvou a filha do perigos escondidos na internet.
A obra, assinada sob pseudônimo por um pai que narra o drama vivido com a filha de 12 anos, mostra como o vício em redes sociais, a automutilação e os desafios online podem levar adolescentes a episódios extremos, como tentativa de suicídio.
A psicóloga classificou o livro como um importante alerta para pais e responsáveis e reforçou a necessidade de uma atuação mais presente da família na rotina digital dos filhos.
“A palavra chave pra mim é monitoramento, nós adultos, temos algumas ferramentas que nós podemos usar para que as nossas crianças e jovens possam ser bem monitorados, é o meu conselho é que a palavra monitoramento é a palavra da vez”, afirmou Naiara.
A profissional destacou que o controle não é sinônimo de invasão de privacidade, mas sim de responsabilidade. “A gente não pode permitir que um adolescente vá para o quarto, fique um tempo inesgotável sem que haja uma supervisão de um responsável. O responsável ele é pela pessoa que está ali justamente para garantir para essa criança que ela tenha saúde mental e física em dia e é isso que a gente precisa, o monitoramento sem descansar”, afirmou Abreu.
O caso retratado no livro, em que a jovem Júlia, de 12 anos, chegou a ser internada após participar de um “desafio online” e tentar o suicídio, não é um episódio isolado. De acordo com dados do Instituto DimiCuida, referência usada pelo próprio Ministério da Justiça, 56 crianças e adolescentes morreram ou ficaram gravemente feridos no Brasil desde 2014 por conta de desafios na internet.
Um desses casos recentes foi o da menina Brenda, de 11 anos, moradora de Bom Jardim, no Agreste de Pernambuco. Ela morreu no dia 9 de março, após inalar desodorante em spray como parte de um desafio visto na internet. Segundo a família informou à polícia, a menina já havia aspirado aerossol outras vezes antes do episódio fatal.
Para Naiara Abreu, casos como esses mostram que os pais precisam entender a gravidade do que acontece no ambiente virtual. “É como você pegar uma droga ilícita que ela é viciante, então o celular também vicia. nós temos hoje caso de pessoas que não conseguem largar o celular, conheço casos de adolescentes que choraram quando vieram ler na sala de aula que não podiam usar o celular, agora imagine isso para uma criança de 2,3 anos. O cérebro ainda não está apto a essa quantidade de estímulos”, afirma.
A psicóloga explicou que, em muitos casos, a automutilação é uma tentativa do adolescente de anestesiar a dor emocional. “A psicologia hoje ela trabalha com inúmeras informações e estatísticas para entender o que essas emoções trazem para os nossos jovens e crianças, para o indivíduo, e ai ele traz essa consequência que essa dor mental pode ser realmente passada, ela pode se acabar se ela tiver uma dor física e vai essa história de mutilações onde os jovens realmente trazem isso à tona”, destaca Abreu.
Ela ressalta que a internet potencializa esse tipo de comportamento por meio de conteúdos que viralizam entre grupos fechados e fóruns pouco acessíveis.
“A internet trouxe muito mais de uma forma intensa, onde os jovens possam copiar e aí esse livro traz muito bem essa questão do copiar, de você fazer desafios, de você mostrar para o público que você faz parte, pertence a aquela comunidade e ai chega uma linha bem tênue que eles não conseguem identificar em que momento eles vão fazer a escolha real”, explica a psicóloga.
Outro ponto abordado por Naiara foi a ausência de limites na educação de crianças e adolescentes. “O não ele é necessário. Quando a gente deixa de ter o controle parental, a gente permite, a gente deixa a vida da nossa criança e do nosso jovem permissível, ou seja, ele pode ir além do que realmente é permitido. Se você não dar a uma criança, a um jovem que não tem maturidade de um adulto essa permissividade, ele vai atravessar essa linha imaginária como se fosse real e ai para ele é muito mais difícil se desvencilhar disso”, alertou.
A especialista recomenda o uso de aplicativos de controle parental, alertas de conteúdo e, principalmente, a criação de um diálogo aberto com os filhos. “Então a gente precisa de duas palavrinhas máginas: Controle parental. A gente precisa ter ferramentas, são vários aplicativos que emitem alertas sobre os conteúdos suspeitos que os filhos veem na internet, os pais devem ensinar o tempo todo aos seus filhos desde cedo sobre segurança, sobre esses desafios onlines, mostrar que a privacidade ela é fundamental, monitorar sempre o que eles fazem no quarto de portas trancadas, usando aparelhos eletrônicos, monitorar o tempo de uso”, afirma Naiara Abreu.
O livro estará disponível nas livrarias a partir do dia 20 de maio e está em pré-venda na Amazon.