Vereadora de Santa Catarina pede retirada do livro Capitães da Areia das escolas: “Promove a marginalização infantil”
Uma vereadora do município de Itapoá, em Santa Catarina, propôs durante uma sessão na Câmara da cidade a retirada do livro Capitães da Areia, do escritor baiano Jorge Amado, dos materiais didáticos das escolas públicas do município. A vereadora, identificada como Jéssica Lemoine (PL), apoiadora do ex-presidente Jair Bolsonaro, formalizou a solicitação.
De acordo com a parlamentar, o livro “promove a marginalização infantil, romantiza o estupro e a relação sexual entre adultos e crianças”. Ela afirmou que a obra, originalmente classificada para maiores de 18 anos, teria sido direcionada a alunos do 7º e 8º anos do ensino fundamental, com idades entre 12 e 13 anos.
A vereadora também declarou que a presença do livro nas escolas seria uma tentativa do Governo Federal e da esquerda de “introduzir a literatura brasileira, entendida por eles como material a ser trabalhado em sala de aula”. Segundo ela, a motivação para o pedido partiu de reclamações de pais que teriam a alertado sobre o conteúdo da obra.
Ainda segundo Jéssica, a inclusão de Jorge Amado, que classificou como “escritor comunista”, no currículo escolar seria uma forma de “infiltração da esquerda” por meio do conteúdo literário.
Em resposta, a Academia Brasileira de Letras (ABL) divulgou uma nota de repúdio, assinada pelo presidente da instituição, Merval Pereira, na quinta-feira (3). Para a ABL, o projeto de exclusão da obra “chega a ser patético”.
“A Academia Brasileira de Letras vem mais uma vez se posicionar contra a tentativa de censura a livros, como acontece agora em Santa Catarina. Escrito em 1937, o livro Capitães da Areia vem sendo admirado desde então. O acadêmico Jorge Amado, um dos nossos maiores escritores, reconhecido internacionalmente, ser discriminado por suposta influência política comunista, a essa altura do século 21, chega a ser patético. Até porque Jorge Amado renegou o comunismo em 1956”, diz o texto.
A nota conclui reafirmando o compromisso da ABL com a liberdade de expressão e com o valor da literatura na formação crítica dos jovens.
O livro Capitães da Areia é conhecido nacionalmente por retratar a violência, a criminalização e o abandono infantil enfrentados por crianças na década de 1930, em meio às transformações políticas e sociais do Brasil. A história se passa em Salvador e acompanha um grupo de meninos de rua, liderados por Pedro Bala, que vivem em um trapiche à margem da sociedade.