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25 de Março, 2024
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Cacau bate recorde de preço – e isso não é motivo para euforia

Sustentabilidade e meio ambiente
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25 de Março, 2024

Esta coluna será a primeira a explicar com realismo o que está acontecendo com o mercado de cacau e sua histórica alta de preços. E vou explicar por que o Brasil não tem muito a celebrar.

Primeiro os fatos:

1. 70% do cacau do mundo é produzido por dois países: Gana e Costa do Marfim;

2. Cerca de 80% do cacau do mundo é comprado por quatro empresas;

3. Desde os anos 90 existem denúncias sobre as péssimas condições dos produtores na África, que recebem valores ínfimos por seu produto.

Pesquise no Google: cacau; África; escravidão e vai entender a gravidade do item 3.

Após décadas recebendo o valor mínimo para a sobrevivência, os agricultores da África não tiveram condições de fazer o básico para a sustentabilidade da lavoura:

– Renovar as plantações
– Prevenção de pragas
– Irrigação

Esse cenário resultou na quebra da safra 2024, causada pelo tripé:

Pestes + seca + baixa produtividade das plantações antigas. A quebra de safra causa escassez de produtos, e com isso alta de preços.

– A alta de preços não tem a ver com a melhor qualidade de nosso cacau (embora ele seja superior);

– A alta não é sustentável no médio prazo; em 3 anos a África se recupera;

– Os preços não aumentaram devido ao aumento da demanda pelo consumo de chocolate;

– Sequer veio de um acordo com a indústria.

Conclusão: não é sustentável; porque a alta de preços vem da opressão de multinacionais aos agricultores. Na Bahia, o produtor que preserva florestas e combate a “Vassoura de Bruxa” é oprimido há anos por esse mesmo cartel.

O cacau da África é importado sem imposto e com isso o preço fica baixo.

A prova é que deputados federais criaram no Congresso a “Frente Parlamentar de Revitalização da Lavoura Cacaueira” e vêm há anos denunciando esse modelo que não motiva investimentos na lavoura.

Em função desse preço baixo, a Bahia hoje produz 30% do que produzia em 1990.

Não existe motivo para euforia; o foco deve ser em um novo arranjo da cadeia produtiva com:

– Crédito para pequenos/médios produtores
– Tributar a importação
– Assessoria técnica

Isso é o básico para começarmos a celebrar.