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Thaise Aglaer 27 de Março, 2026
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“Sempre que a gasolina sobe, o etanol também sobe”, afirma economista sobre impacto da crise internacional

Economia
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Thaise Aglaer 27 de Março, 2026

Alta do biocombustível em 23 estados reflete efeitos da guerra no Oriente Médio e da política de preços na Bahia

O aumento dos combustíveis no Brasil ganhou força nas últimas semanas e atingiu em cheio o etanol, que registrou alta em 23 estados. O biocombustível, historicamente visto como alternativa mais barata e menos poluente, perdeu competitividade frente à gasolina, que já ultrapassa os R$ 7 em diversas regiões.

Em Salvador, o litro da gasolina comum chegou a R$ 7,49 após reajuste de 7,5% aplicado pela refinaria de Mataripe. O acréscimo médio foi de aproximadamente R$ 0,50 em menos de uma semana, e o repasse imediato deixou os motoristas sem alternativas mais econômicas. O etanol, que deveria ser a opção de menor custo, acompanhou a escalada e também subiu.

Embora o etanol não dependa da extração de petróleo, sua precificação está vinculada à gasolina. Para especialistas, esse movimento evidencia a dependência global e a rapidez com que crises geopolíticas se transformam em inflação.

Consultor e professor de Economia e Finanças, Antonio Carvalho lembra que o etanol nasceu nos anos 1970 como substituto da gasolina, mas acabou se tornando complementar com a criação dos motores flex.

“Isso fez com que o etanol deixasse de ser substituto para se tornar complementar, já que atualmente 30% da gasolina é etanol”, explica.

Essa ligação direta, segundo ele, limita a vantagem do biocombustível em momentos de crise.

“Sempre que a gasolina sobe, o etanol também sobe, e isso é muito ruim para o bolso do consumidor. O combustível passou a ser uma espécie de gatilho da inflação, porque tudo que produzimos e consumimos depende dele para transporte. Sempre que aumenta, o custo é repassado nos preços, gerando impacto que sentimos na pele.”

Dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP) mostram que o preço médio do etanol equivale hoje a cerca de 70% do valor da gasolina, o que reduz a atratividade econômica para motoristas.

Na Bahia, o comportamento dos preços é influenciado pela refinaria de Mataripe, sob gestão da Acelen. A empresa adota uma política de reajustes mais frequente, alinhada às variações internacionais, enquanto a Petrobras em alguns momentos opta por segurar aumentos. Essa diferença expõe o estado de forma mais direta às oscilações externas e acaba refletindo também no etanol, já que ele integra a mistura da gasolina vendida nos postos.

A tributação é outro elemento decisivo. O ICMS, fixado em R$ 1,57 por litro desde janeiro, representa cerca de 20% do valor final pago pelo consumidor. Quando somados os tributos federais, a carga ultrapassa R$ 2,20 por litro. Como o etanol anidro compõe até 30% da gasolina, seu preço também sofre influência dessa estrutura tributária.

Para Carvalho, a normalização dos preços depende de fatores externos e internos.

“Se o conflito internacional se encerrar e a normalidade dessa produção e escoamento voltar, teremos uma perspectiva de retorno aos preços normais do petróleo, e isso traria uma certa normalidade também para o etanol. Além disso, um aumento na produtividade das usinas poderia ampliar a produção de etanol e reduzir a dependência do preço internacional do petróleo. Mas isso não é algo de curtíssimo prazo — depende de uma safra maior e de planejamento.”

O etanol, que já foi visto como alternativa estratégica para reduzir a dependência da gasolina, enfrenta hoje o desafio de se manter competitivo em meio à alta dos combustíveis e às pressões externas. Para Antonio Carvalho, a recuperação da competitividade do biocombustível depende tanto da estabilização internacional quanto de medidas internas para ampliar a produção.