Netinho: apoio a Bolsonaro, polêmicas e críticas ao Carnaval marcaram trajetória política do cantor
A trajetória do cantor baiano Netinho, conhecido nacionalmente pelo sucesso “Milla”, também foi marcada por posicionamentos políticos que provocaram repercussão e dividiram opiniões. O artista morreu nesta terça-feira (13), aos 60 anos, em um hospital de Salvador, após enfrentar um câncer do sistema linfático.
Nos últimos anos, o artista tornou público seu alinhamento com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), chegou a disputar uma vaga na Câmara dos Deputados e protagonizou polêmicas envolvendo o Carnaval de Salvador, a comunidade LGBTQIA+ e os atos políticos de janeiro de 2023.
Em janeiro de 2022, ao anunciar sua pré-candidatura a deputado federal pela Bahia, Netinho afirmou que seria um “soldado de Jair Bolsonaro na Câmara”. Filiado ao Partido Liberal (PL), o cantor declarou que pretendia defender pautas associadas ao conservadorismo e utilizou o lema “Deus, Pátria, Família e Liberdade”, frequentemente relacionado a setores da direita brasileira.
Nas eleições daquele ano, Netinho recebeu 31.448 votos, mas não conseguiu se eleger.
Declarações sobre o Carnaval e a comunidade LGBTQIA+
Uma das principais controvérsias envolvendo o artista ocorreu em 2020, durante uma entrevista ao deputado federal Eduardo Bolsonaro. Na ocasião, Netinho fez críticas ao Carnaval de Salvador e a comportamentos que, segundo ele, teriam se tornado comuns durante a festa.
O cantor utilizou a expressão “Sodoma e Gomorra” para descrever o Carnaval, associando a celebração a comportamentos sexuais que desaprovava e ao consumo de drogas em camarotes. As declarações tiveram repercussão negativa, especialmente porque o artista construiu parte significativa de sua carreira justamente como um dos nomes conhecidos da música carnavalesca baiana.
Na mesma entrevista, Netinho fez comentários sobre pessoas LGBTQIA+ que foram considerados ofensivos e motivaram reações públicas. Em agosto de 2020, um ativista anunciou uma queixa-crime contra o cantor e outro artista por declarações consideradas homofóbicas e transfóbicas. O anúncio da medida, entretanto, não significa que tenha ocorrido condenação judicial.
As declarações ganharam destaque também pelo contraste com a história pessoal do cantor, que havia falado publicamente sobre sua homossexualidade em uma entrevista ao programa Fantástico, da TV Globo, em 2010.
Disputa com o compositor de “Milla”
Em maio de 2021, Netinho voltou ao centro de uma polêmica ao participar de uma manifestação favorável a Bolsonaro na Avenida Paulista, em São Paulo. Durante o ato, o cantor interpretou “Milla”, um de seus maiores sucessos.
A apresentação provocou uma reação pública do compositor Manno Góes, autor da música. Contrário à utilização da canção naquele contexto político, ele manifestou sua insatisfação nas redes sociais e afirmou que não autorizava o uso da obra na manifestação.
O episódio transformou uma música tradicionalmente associada à alegria do Carnaval em objeto de disputa política. A controvérsia também levantou questionamentos sobre os direitos dos compositores e a utilização de obras musicais em manifestações públicas.
Repercussão após os atos de 8 de janeiro
Em janeiro de 2023, Netinho voltou a enfrentar críticas por suas manifestações políticas relacionadas à mobilização de apoiadores de Bolsonaro. Naquele período, grupos contrários ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) promoviam protestos e defendiam medidas como a intervenção militar.
Segundo reportagens publicadas na época, o cantor divulgou mensagens incentivando uma mobilização em Brasília e escreveu: “Precisamos parar o Brasil, invadir pacificamente Brasília e retirar os malignos de lá”.
As publicações repercutiram após os ataques de 8 de janeiro de 2023, quando manifestantes invadiram e depredaram as sedes do Congresso Nacional, do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Palácio do Planalto.
Netinho negou ter incentivado atos de vandalismo ou terrorismo e contestou as acusações relacionadas às suas manifestações. A existência das publicações, por si só, não comprova que o cantor tenha participado da invasão dos prédios públicos.
Show cancelado em Aracaju
A repercussão das declarações teve consequências profissionais. Em janeiro de 2023, o Iate Clube de Aracaju, em Sergipe, cancelou a apresentação de Netinho prevista para o Carnaval.
A decisão ocorreu após questionamentos de associados sobre o posicionamento político do artista e suas manifestações relacionadas aos protestos de apoiadores de Bolsonaro. O clube declarou que não compactuava com atos antidemocráticos.
Críticas aos próprios aliados
Apesar do alinhamento com Bolsonaro, Netinho também demonstrou insatisfação com a atuação de parlamentares ligados ao campo bolsonarista.
Em maio de 2023, o cantor publicou críticas direcionadas a políticos que haviam sido eleitos ou reeleitos com apoio de setores da direita. Em uma das manifestações, questionou: “Colocamos eles lá pra quê?”.
As declarações foram interpretadas como uma cobrança por resultados dos representantes políticos que, na avaliação do artista, não estariam correspondendo às expectativas de seus eleitores.
O episódio mostrou que, embora mantivesse sua identificação com o bolsonarismo, Netinho também passou a questionar a atuação de integrantes do próprio grupo político.
Críticas à festa que marcou sua carreira
Nos anos seguintes, o cantor continuou manifestando insatisfação com os rumos do Carnaval de Salvador. Em janeiro de 2025, voltou a comentar sua decisão de deixar de cantar na festa em 2012, afirmando que, na sua avaliação, a música apresentada no evento havia mudado e já não correspondia à sua visão artística.
As críticas reforçaram uma mudança de posicionamento em relação à celebração que contribuiu para consolidar sua carreira nacional. Ao longo dos anos, Netinho passou a associar suas opiniões sobre o Carnaval a questões de comportamento, costumes e valores conservadores.