Nestlé aparece em registros de contribuições à ditadura militar no Brasil
Documentos do Arquivo Nacional e o relatório da Comissão Nacional da Verdade revelam que a multinacional suíça Nestlé esteve entre as empresas que financiaram estruturas de repressão durante a ditadura militar.
Registros mostram que o então presidente da Nestlé Brasil, Gualter Mano, realizou contribuições para o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES), entidade conservadora que ajudou a preparar o golpe de 1964. A Comissão da Verdade cita ainda a Nestlé entre as companhias que colaboraram com a Operação Bandeirantes (Oban), aparato clandestino que serviu de modelo para os DOI-Codi, centros de tortura espalhados pelo país.
Outro elo foi o executivo Oswaldo Ballarin, presidente da Nestlé entre 1971 e 1978, acusado de contratar a agência Consultores Industriais Associados (CIA), apontada como fachada para financiar esquadrões da morte e perseguir opositores. Denúncias enviadas ao governo suíço em 1979 chegaram a acusá-lo de cumplicidade em homicídio premeditado.
Enquanto acumulava influência junto ao regime, a Nestlé ampliava seus negócios: entre 1971 e 1975, em pleno “milagre econômico”, sua rentabilidade no Brasil praticamente dobrou. Ao mesmo tempo, a empresa enfrentava críticas internacionais por sua política agressiva de promoção do leite em pó, acusada de comprometer o aleitamento materno e provocar mortes de bebês em países pobres.
Em nota recente, a Nestlé afirmou que não compactua com práticas de repressão e reafirmou seu compromisso com a democracia e os direitos humanos. A empresa, no entanto, não abriu seus arquivos históricos para pesquisadores.