PF aponta que Vorcaro sabia de operação e planejou deixar o país um dia antes da prisão
Documento teve sigilo retirado nesta quinta-feira (10) e detalha contatos do banqueiro com advogado, jornalista e servidores do Banco Central antes da Operação Compliance Zero
Um documento da Polícia Federal (PF) que teve o sigilo retirado nesta quinta-feira (10) detalha as movimentações do banqueiro Daniel Vorcaro nos dias que antecederam a Operação Compliance Zero e aponta que ele tinha conhecimento antecipado da ação policial.
Segundo a PF, Vorcaro chegou a planejar uma viagem para fora do país no dia anterior à deflagração da operação. Ele foi interceptado na noite de 17 de novembro de 2025, no Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, quando estava prestes a embarcar em um jato particular com destino final aos Emirados Árabes.
O documento reúne uma sequência de acontecimentos que, na avaliação dos investigadores, indica que o banqueiro tinha informações sobre a investigação e se movimentava para tentar deixar o Brasil.
Veja a cronologia apontada pela PF
Em 21 de outubro de 2025, Vorcaro teria registrado no aplicativo de notas do celular os nomes de representantes da Polícia Federal que participaram de uma reunião reservada com o Banco Central. Para os investigadores, o registro pode indicar que ele teve acesso antecipado a informações consideradas reservadas.
Já em 16 de novembro, dois dias antes da operação, o banqueiro teria feito uma nova anotação questionando se uma terceira pessoa teria proximidade com o juiz federal Ricardo Soares Leite, responsável por autorizar medidas contra ele. A PF considera que o episódio reforça a suspeita de que Vorcaro tinha conhecimento prévio da investigação, que tramitava sob sigilo.
Na manhã de 17 de novembro, um dia antes da operação, Vorcaro recebeu mensagens urgentes do advogado Walfrido Warde, às 7h28. Pouco depois, às 8h48, informou que iria agendar um voo com saída do Aeroporto de Congonhas.
No mesmo dia, o banqueiro manteve conversas com o jornalista Diego Escosteguy a respeito de uma reportagem que seria publicada. Depois das 11h, recebeu o link da matéria e o encaminhou imediatamente ao advogado.
A reportagem citava a existência de um inquérito na 10ª Vara Federal de Brasília. Na sequência, Warde protocolou uma petição na Justiça Federal solicitando acesso ao conteúdo da investigação e mencionou a reportagem como fonte da informação.
Ainda segundo a PF, Vorcaro e o advogado passaram o restante do dia tratando do assunto, inclusive com insistência sobre um possível contato com o juiz responsável pelo caso.
Reunião com Banco Central
Também em 17 de novembro, Vorcaro manteve contatos com servidores do Banco Central, identificados pela PF como Paulo Sérgio e Belline. Segundo o documento, os interlocutores consideraram “fundamental” uma conversa entre o banqueiro e o diretor do BC, Ailton Aquino.
A reunião foi articulada para o mesmo dia. Vorcaro sugeriu 13h, Paulo Sérgio confirmou o horário de 13h15 e Belline encaminhou o link às 13h35.
Depois do encontro, circulou uma reportagem sobre a suposta venda do Banco Master ao Grupo Fictor. Segundo a PF, a ausência de surpresa dos servidores diante da publicação indicaria que havia um alinhamento prévio sobre o assunto.
Naquela noite, agentes policiais abordaram Vorcaro no Aeroporto de Guarulhos, quando ele estava prestes a embarcar em um avião particular com destino final aos Emirados Árabes.
A Operação Compliance Zero foi deflagrada oficialmente no dia seguinte, 18 de novembro de 2025.
PF fala em tentativa de saída do país
No documento, a Polícia Federal afirma que os elementos reunidos indicam que Vorcaro tinha conhecimento antecipado da atuação policial e teria utilizado contatos dentro do Banco Central para articular uma reunião na véspera da operação.
Para os investigadores, a movimentação, somada às conversas com autoridades, ao acompanhamento de procedimentos internos e ao planejamento de uma viagem internacional, indicaria uma tentativa de proteção diante da iminência das medidas judiciais.
Vorcaro chegou a ser solto cerca de dez dias depois, por decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, junto com outros quatro executivos do Banco Master.
A própria PF cita a reunião com o Banco Central entre os elementos considerados na decisão que favoreceu a liberdade do banqueiro.
As informações reunidas no novo documento foram utilizadas pela Polícia Federal para fundamentar um pedido de nova prisão preventiva de Vorcaro, protocolado em 27 de fevereiro de 2026.
Em março deste ano, o banqueiro voltou a ser preso.