Prisão é o fim da minha vida, diz Bolsonaro
O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) admitiu, em entrevista que conversou com auxiliares e militares sobre medidas como estado de sítio, estado de defesa e o artigo 142 da Constituição. No entanto, ele nega que tenha planejado qualquer tentativa de golpe para impedir a posse do presidente Lula (PT).
A declaração de Bolsonaro à Folha de S. Paulo, publicada nesta sábado (29), ocorre na mesma semana em que ele se tornou réu no Supremo Tribunal Federal (STF), acusado de liderar uma conspiração para anular o resultado das eleições de 2022 e manter-se no poder. O processo pode resultar em uma pena de mais de 40 anos de prisão.
Na entrevista, Bolsonaro foi questionado se uma eventual prisão significaria o fim de sua carreira política, disse: “É o fim da minha vida. Eu já estou com 70 anos”. O ex-presidente afirmou ainda que uma possível condenação seria “completamente injusta uma possível prisão. Cade meu crime? Onde eu quero alguma coisa? Cadê a prova de um possível golpe?”, questionou.
Segundo ele, as discussões ocorreram em um momento de incerteza após o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) rejeitar os questionamentos de sua campanha sobre o resultado das eleições.
“Eu não esperava o resultado [das eleições]. Entramos com a petição e, no dia seguinte, o senhor Alexandre Moraes mandou arquivar e nos deu uma multa de R$ 22 milhões . Se a gente recorresse, poderia passar para R$ 200 milhões. Se eu não vou recorrer à Justiça Eleitoral , pode ir para onde? Eu conversei com as pessoas, dentro das quatro linhas, que vocês estão cansados de ouvir, o que a gente pode fazer? Daí foi olhado lá, [estado de] sítio, [estado de] defesa, [artigo] 142, intervenção”, disse o ex-presidente em entrevista à jornalista Marianna Holanda.
O ex-presidente também mencionou a consulta ao artigo 142 da Constituição, que, segundo interpretações equivocadas de seus apoiadores, permitiria a intervenção das Forças Armadas para resolver crises institucionais. O STF já rejeitou essa leitura.
Apesar das discussões, Bolsonaro negou que tenha tentado buscar apoio das Forças Armadas para um golpe. “Tem que discutir com várias pessoas. Eu tenho muita confiança nos militares. Não tem problema nenhum conversar. Conversa primeiro com o ministro da Defesa. Depois, na segunda reunião que apareceram os caras lá. Existe algo fundamentado, concretamente, para que as pessoas procurem uma alternativa? Chegou à conclusão que, mesmo que tivesse, não vai obrigação. Então esqueci”, declarou.
Além da denúncia no STF por tentativa de golpe, Bolsonaro é investigado em outros processos, incluindo o caso das joias sauditas e a fraude nos cartões de vacina. Sobre a decisão da Procuradoria-Geral da República (PGR) de arquivar a investigação sobre as vacinas, ele afirmou que jamais teria ordenado a falsificação de seu cartão.
“Eu jamais faria um pedido desse para alguém, me desmoralizaria politicamente, porque sempre fui contra a vacina, que até hoje é experimento [o imunizante foi aprovado pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária)]. Um delator, para seguir a regra, tem que ser espontâneo, falar a verdade e ter prova. Tanto é que o senhor [procurador-geral da República Paulo] Gonet chegou à conclusão que não tinha compromissos mínimos de eu ter mandado falsificar o cartão. Esse pedido de arquivamento, se fosse na Lava Jato, já tinha tudo anulado. Mas como eu não sou tão poderoso assim…”, afirmou, o ex-presidente.
Apesar do tom de preocupação, ele nega que cogita fugir do país ou pedir asilo político. “Zero, zero, zero. Eu acho que estou com uma cara boa aqui. Tenho 70 anos, sinto-me bem. Eu quero o bem do meu país”, ressaltou Bolsonaro.