Relatório da ‘Abin paralela’ atrasa novamente, e PF chama integrantes da gestão Lula para depor
Oitiva do chefe de gabinete da Abin e do corregedor-geral da agência resultou em mais um adiamento na conclusão do inquérito
A Polícia Federal (PF) ouviu o chefe de gabinete do diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Luiz Fernando Corrêa, e o corregedor-geral da agência, no âmbito da investigação sobre a chamada “Abin paralela”. A oitiva dos representantes da gestão Lula (PT) resultou em mais um adiamento na conclusão do inquérito.
Tanto o chefe de gabinete de Corrêa, o delegado Luiz Carlos Nóbrega Nelson, quanto o corregedor-geral, o delegado José Fernando Moraes Chuy, foram intimados como investigados. Os depoimentos ocorreram simultaneamente na semana passada.
A investigação, que teve início no primeiro ano do governo Lula, busca apurar indícios de aparelhamento da Abin durante a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e do ex-diretor-geral da agência, Alexandre Ramagem (PL-RJ), atualmente deputado federal. Desde 2023, a direção-geral da Abin está sob suspeita de suposta obstrução de Justiça.
A ampliação do inquérito tem gerado tensões nos bastidores entre Corrêa e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, aumentando a pressão sobre o presidente Lula, diante da possibilidade de indiciamento do chefe da Abin, considerado homem de confiança do petista.
A relação entre os dois diretores se deteriorou após a revelação de uma suposta ação hacker da Abin contra autoridades paraguaias durante negociações sobre a usina de Itaipu. A disputa culminou em uma discussão acalorada diante do presidente e do ministro da Casa Civil, Rui Costa.
A PF já estabeleceu diferentes prazos para a conclusão do inquérito: o primeiro seria em agosto de 2024, depois em dezembro, mas até agora, não houve encerramento. No início deste ano, a corporação indicou que aguardaria a finalização de um relatório complementar sobre a trama golpista —uma etapa que foi descartada após a denúncia da PGR (Procuradoria-Geral da República) em fevereiro.
Além disso, a Controladoria-Geral da União (CGU) iniciou um processo administrativo para ouvir servidores da Abin sobre o uso do software espião First Mile durante a gestão de Ramagem. O caso, antes sob a responsabilidade da corregedora Lidiane Souza dos Santos, passou para a CGU pouco antes de sua saída do cargo, em agosto do ano passado.
A Abin foi procurada pela reportagem, mas não se manifestou sobre o assunto. Enquanto isso, oficiais de inteligência afirmam que o problema não é o uso do software, mas a aplicação indevida para monitoramento sem justificativa. O caso segue em análise no Supremo Tribunal Federal (STF), que discute a regulamentação do uso de ferramentas de espionagem por órgãos de inteligência.