Como símbolos usados por facções colocam vidas em risco e ampliam a violência na Bahia
O Se Ligue Bahia conversou com o Capitão da Polícia Militar da Bahia (PMBA), Alden Silva, que hoje exerce o mandato de deputado federal, sobre essas simbologias
No início do mês, a morte dos irmãos percussionistas Gustavo Natividade, de 15 anos, e Daniel Natividade dos Santos, de 21, chocou a Bahia. Na ocasião, os integrantes do bloco Malê Balê, foram assassinados no dia 7 de outubro, no Emissário de Arembepe, destino turístico de Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador.
As investigações quanto a autoria e motivação do crime apontaram que o alvejamento ocorreu algumas horas após as vítimas tirarem uma foto, onde faziam um sinal com as mãos, conhecido no mundo do crime como ‘tudo 3’. Na visão dos seus assassinos, pertencentes ao Comando Vermelho (CV), o gesto era como uma saudação para a facção rival, conhecida como Bonde do Maluco (BDM).
Essa, porém, não é a primeira vez que crimes como este acontecem. Isso porque, o que um dia já foi sinônimo de descontração em fotos, representando expressões como “paz e amor” ou referências ao mundo do rock, ganharam uma nova roupagem, tornando-se um risco para pessoas que passam longe do mundo da criminalidade.
Facções
Atualmente, no Brasil, existem 85 facções que se utilizam não só de gestos, mas, também, de gírias, cortes no cabelo e sobrancelhas, tatuagens e até mesmo cores de vestimentas para se identificarem.
Para entender melhor o funcionamento desses grupos, o Se Ligue Bahia conversou com o Capitão da Polícia Militar da Bahia (PMBA), Alden Silva, que hoje exerce o mandato de deputado federal. O parlamentar afirmou que as simbologias não são aparições recentes.
“Desde 2012, quando eu atuava na Secretaria de Segurança Pública (SSP), o órgão não reconhecia a existência das simbologias, mas elas já estavam ali. A empresa orientava a não citar [sobre os gestos] porque, antes, era uma ideia, para não fortalecer e ‘dar palco’ a essas facções. Eu sempre discordei e já via, dentro de muitos bairros e prisões, esses símbolos expostos”, iniciou Alden.
Após começar a estudar e investigar mais sobre o assunto, ainda dentro da corporação, o capitão decidiu se desvincular da secretaria, já que, segundo ele, informações internas começaram a ser reveladas.
“Em 2016, começou o meu problema com o estado, porque eu comecei a revelar informações internas e isso poderia desestabilizar a instituição”, disse.
Diferença entre grupo criminoso e facção
Apesar da quantidade expressiva de facções existentes no país, para que um grupo seja considerado uma facção, eles precisam cumprir alguns requisitos, como, por exemplo, a presença de uma liderança, estatutos próprios e, muitas vezes, rituais de iniciação. Caso contrário, os mesmos são enquadrados ‘apenas’ como grupos criminosos.
“Ou seja, para ser uma facção, precisa funcionar como uma instituição, que possua contas bancárias e indenização às famílias de integrantes que sejam mortos, por exemplo”, afirmou.
Já tem um tempo, no entanto, que outras codificações, antes vistas como ‘normais’, foram implementadas na capital baiana e que estão presentes dentro das escolas e igrejas, por exemplo.
“É preocupante! Hoje em dia, existe um seguimento muito forte do uso desses símbolos dentro de escolas, que foge ao conhecimento dos pais e professores. Dentro das igrejas existe também uma forte cultura de diversas simbologias que podem ser confundidas e trazer problemas”, relatou.
Facções e suas leis dentro das comunidades
No Bairro da Paz, em Salvador, líderes criminosos impõem uma ordem que proíbe os moradores de fecharem portas e janelas durante a noite. A medida visa garantir rotas de fuga para os chamados “meninos de vovó” — jovens envolvidos na venda de drogas —, que, ao serem surpreendidos pela chegada da polícia, invadem as casas da comunidade em busca de refúgio.
A violência entre facções rivais é igualmente brutal: integrantes capturados em territórios inimigos são torturados com cortes nas costas ou têm os dedos amputados, simbolizando a quantidade de letras da sigla do grupo opositor, como uma marca de submissão à nova facção.
No Rio de Janeiro, em alguns bairros, é proibido usar certas marcas de roupas ou cores específicas, uma realidade que, segundo Alden, já começa a aparecer em Salvador. “Essa é uma situação que já está chegando em Salvador e que tem me preocupado, porque as pessoas de bem ainda estão desinformadas sobre esses aspectos e podem acabar, por descuido ou por não saber, sendo vítimas dos bandidos”, alertou.
Outro problema é a circulação de motoboys e motoristas de aplicativos dentro das comunidades. Muitas tragédias já aconteceram com trabalhadores deste seguimento, já que é necessário que os mesmos se identifiquem através da buzina ou dos faróis.
Caso seja uma área dominada pelo Comando Vermelho (CV), por exemplo, o motorista precisa buzinar ou piscar a luz duas vezes, demonstrando que ele é da área ou que aceita se submeter às regras da região”, destacou.
Por fim, a presença de cachorros soltos nas ruas tem se tornado um problema crítico em operações policiais, não apenas pelo risco à segurança pública, mas também pelo impacto na vida dos próprios animais. Segundo o Capitão Alden, os cães, ao seguir seu instinto de correr e latir atrás de suspeitos em fuga, acabam revelando suas localizações e, muitas vezes, se tornam alvos fatais no meio dos confrontos.
“Essa dinâmica explica, em parte, o crescente número de animais encontrados mortos nas áreas onde essas ações ocorrem, evidenciando uma necessidade urgente de políticas para proteger tanto a população quanto esses animais vulneráveis”, concluiu.