Do sorvete ao faraó: a história por trás dos maiores hits do Carnaval de Salvador
Chegou o grande dia! Nesta quinta-feira (27), acontece a abertura oficial do Carnaval de Salvador e os foliões já estão no clima da festa. Mas será que, além da animação, eles dominam a letra dos maiores hits carnavalescos da Bahia? Sucessos como We Are Carnaval, Selva Branca e Faraó atravessaram gerações e se tornaram verdadeiros hinos da folia, mas muita gente pode estar cantando errado – ou sem conhecer a história por trás dessas músicas icônicas.
Para entrar no ritmo da festa do jeito certo, o Se Ligue Bahia relembra a trajetória desses três clássicos que marcaram o Carnaval e já são considerados patrimônios da música baiana.
O segredo por trás de Selva Branca: a história e os versos que os foliões cantam errado há 40 anos
Quando Bell Marques inicia os primeiros acordes de Selva Branca nos circuitos do Carnaval de Salvador, a multidão responde em coro, em uma explosão de nostalgia e animação. A canção, composta por Carlinhos Brown em parceria com Vevé Calazans, atravessou gerações e se consolidou como um dos grandes hinos da folia baiana. No entanto, poucos sabem que por trás da melodia contagiante há uma história de amor – e que alguns versos são entoados de forma errada há quase quatro décadas.
No final dos anos 1980, Carlinhos Brown vivia um romance arrebatador com uma mulher que viria a ser mãe de sua primeira filha. Apaixonado, ele a apelidou de “Selva Branca” e, inspirado nesse sentimento intenso, decidiu transformar o amor em música. Durante uma viagem ao Rio de Janeiro, onde se apresentava com Caetano Veloso, começou a compor a canção, mas enfrentou dificuldades para concluir a letra. Foi então que recorreu ao talento de Vevé Calazans, que ajustou os versos e ajudou a finalizar a composição.
O erro que virou tradição
Embora a canção tenha sido eternizada na voz do Chiclete com Banana, alguns versos ganharam versões alternativas na boca dos foliões. Um dos equívocos mais curiosos envolve a palavra “sorvete”. Desde o lançamento da música, muitos cantam:
“Quanto mais sorvete, quero teu calor/ Quanto mais desejo de amor”.
No entanto, o correto é “quanto mais sorver-te, quero teu calor”, onde “sorver-te” vem do verbo “sorver”, que significa beber lentamente. Ou seja, não há nenhuma referência a um sorvete de verdade na canção.
Outro trecho frequentemente cantado de forma equivocada é “vi nascer em cada estrela a novidade”, quando a letra original diz “fiz nascer em cada estrela a novidade”.
A história de We Are Carnaval: o hino que nasceu de uma campanha beneficente
É quase impossível encontrar um folião que não conheça os versos: “ah, que bom você chegou, bem-vindo a Salvador, coração do Brasil […]”. Mas o que poucos sabem é que, se não fosse Irmã Dulce, esse verdadeiro hino do Carnaval de Salvador talvez nunca tivesse existido.
A canção foi criada em 1988 pelo publicitário baiano Nizan Guanaes para uma campanha das Óticas Ernesto. O objetivo era arrecadar fundos para as Obras Sociais Irmã Dulce, instituição que presta assistência a milhares de pessoas carentes na Bahia. Para dar força ao projeto, Nizan transformou a melodia em um jingle e reuniu grandes nomes da música baiana para interpretá-la, incluindo Margareth Menezes, Daniela Mercury, Ricardo Chaves, Durval Lelys e Lazzo Matum bi.
O nascimento do samba-reggae: a história por trás de Faraó
Lançada nos anos 80, Faraó – Divindade do Egito entrou para a história como o primeiro samba-reggae gravado no Brasil, tornando-se um marco na música baiana e no Carnaval de Salvador.
A composição é de Luciano Gomes, integrante da ala de canto do Olodum. A canção surgiu a partir de um convite para o Festival de Música e Artes do Olodum (FEMADUM), cujo tema daquele ano era o líder do Império Egípcio. Após uma intensa pesquisa sobre a cultura do Egito, Luciano criou, sem imaginar, um dos maiores sucessos do grupo.
A música ganhou projeção nacional quando foi interpretada por Margareth Menezes, sendo também gravada por Olodum e Banda Mel. Com seu ritmo envolvente e batidas marcantes, Faraó não só ajudou a consolidar o samba-reggae como gênero musical, mas também segue ecoando nos circuitos do Carnaval, eternizando-se como um verdadeiro hino da folia baiana.
A canção também carrega um forte simbolismo cultural e político. Em entrevista ao Se Ligue Bahia, o historiador Lucas Lins destaca a importância do Carnaval como termômetro da sociedade, refletindo transformações e influências ao longo dos anos:
“O Carnaval baiano sempre foi um espaço de expressão política e cultural. O surgimento dos blocos afro nos anos 1970, a criação da Axé Music e o próprio trio elétrico mostram como a música reflete e impulsiona mudanças sociais. Faraó é um grande exemplo disso, pois além de resgatar mitologias egípcias, também reforça a identidade negra e a luta contra o racismo. A canção menciona o Pelourinho e o Olodum como símbolos de resistência, mostrando como o Carnaval de Salvador sempre esteve ligado a questões sociais e históricas.”
O Carnaval como termômetro da sociedade
Para entender melhor o impacto do Carnaval na música e na cultura baiana, Lucas Lins explicou como a festa reflete transformações sociais:
“O Carnaval baiano é um termômetro do Brasil inteiro. Muitos hits nacionais foram criados para essa festa, e onde quer que se pense em Carnaval, os olhos se voltam para Salvador. Embora o Axé Music tenha perdido força como principal influência, novos ritmos surgiram e influenciaram a sociedade, como o pagode e o próprio samba-reggae.”
Ele também destaca que a música baiana traz representação do cotidiano, das práticas religiosas e do profano, elementos que fazem do Carnaval uma expressão cultural tão forte.
“Nenhuma manifestação cultural morre completamente. O rock não morreu, por exemplo. A música baiana pode mudar, mas sempre será um reflexo da nossa sociedade e da nossa história.”