VÍDEO: Filhos negros de diplomatas são abordados de forma violenta pela PM
Caso aconteceu no Rio de Janeiro, na última terça-feira (3), mas ganhou repercussão após o vídeo ser divulgado, nesta sexta (5)
Três meninos de 13 anos foram abordados de forma violenta por policiais militares no Rio de Janeiro (RJ). Eles são filhos da embaixatriz do Gabão e dos diplomatas do Canadá e da Burkina Faso. A ação ocorreu na última terça-feira (3), mas o caso ganhou repercussão após o vídeo mostrando a abordagem violenta ser divulgado, nesta sexta (5).
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A embaixatriz Julie-Pascale Moudouté afirmou que o filho está traumatizado. Ela acredita que houve racismo no comportamento dos policiais, inclusive por se tratar de um bairro considerado nobre, Ipanema. Outros dois amigos brancos, que estavam com eles no momento da abordagem, não teriam sofrido as mesmas agressões.
“O que a gente acha estranho é que só os três foram contra a parede. Que são de nacionalidades diferentes e de cor preta. A gente precisa de uma explicação também para isso. A gente acredita na Justiça brasileira. O trauma dos meninos não é só de um dia. Vai permanecer e a gente vai ter que cuidar disso”, disse a embaixatriz, em entrevista à TV Brasil.
Um vídeo mostra os policiais chegando com armas em punho e colocando os adolescentes contra a parede. Julie-Pascale Moudouté disse que, a princípio, o filho não falou muito sobre o episódio. Só depois de terem acesso às conversas que ele trocou com o irmão mais velho tiveram a dimensão real das agressões e ficaram em choque.
“Eles têm só 13 anos. Colocar uma arma na cabeça de um menino, imagina como isso repercute para ele? Ele nunca viu uma arma, nem de brinquedo. Porque na nossa casa, não oferecemos esse tipo de brinquedo. Uma criança de 13 anos ser abordada dessa forma tão violenta, contra uma parede? Ter que mostrar as partes genitais? Primeiramente, a abordagem tem que ser de uma forma respeitosa. Perguntar pelos pais, porque eles são menores de idade. E não sair da viatura já com arma”, destacou a embaixatriz Julie-Pascale Moudouté.
A mãe de um dos meninos brancos, que é brasileiro e mora no Rio, desabafou nas redes sociais.
“Às 19h, voltando para casa em Ipanema, foram deixar um amigo na porta de casa, na Rua Prudente de Moraes, quando foram abruptamente abordados por policiais militares, armados com fuzis e pistolas, e sem perguntar nada, encostaram os meninos (menores de idade) no muro do condomínio. Três, dos quatro adolescentes, são NEGROS! Com arma na cabeça e sem entender nada, foram violentados. Foram obrigados a tirar casacos, e levantar o ‘saco’.”, contou Rhaiana Rondon.
“Após a abordagem desproporcional, testemunhada pelo porteiro do prédio, é que foram questionados de onde eram, e o que faziam ali. Os três negros não entenderam a pergunta, porque são estrangeiros, filhos de diplomatas, e portanto não conseguiram responder. Caetano, o menino branco e meu filho, disse que eram de Brasília e que estavam a ‘turismo’. Após ‘perceberem” o erro, liberaram os meninos, mas antes alertaram as crianças que não andassem na rua, pois seriam abordados novamente! As imagens, os testemunhos e o relato das crianças são claros!! Não há dúvida!! A abordagem foi RACIAL e CRIMINOSA!!”, reclamou.
Ela diz que nem ela nem os filhos, todos brancos, haviam presenciado algo parecido. “Uma viagem de férias, planejada há meses entre quatro amigos. Com destino ao Rio, quatro adolescentes de 13 e 14 anos, acompanhado dos avós de um deles, experienciaram nas primeiras horas a pior forma de violência. […] É traumático, triste, é doloroso. Estão assustados e machucados, com marcas que nem o tempo apagará.
O incidente envolveu três países diferentes (Canadá, Gabão e Burkina Faso). O Itamaraty já foi informado e os consulados no Rio já estão em ação”, concluiu.
Resposta da PM
A assessoria de imprensa da Polícia Militar afirmou que os policiais envolvidos na ação portavam câmeras corporais e que as imagens serão analisadas para constatar se houve algum excesso por parte dos agentes.
“Em todos os cursos de formação, a Secretaria de Estado de Polícia Militar insere nas grades curriculares como prioridade absoluta disciplinas como Direitos Humanos, Ética, Direito Constitucional e Leis Especiais para as praças e oficiais que integram o efetivo da Corporação”, diz nota divulgada pela PM.
A Polícia Civil informou que depois da veiculação de notícias sobre o ocorrido, a Delegacia Especial de Apoio ao Turismo (Deat) iniciou uma investigação. Agentes buscarão ouvir os adolescentes abordados.