Estudantes protestam contra governo Jerônimo durante evento na UNEB
A cerimônia de posse da nova Reitoria da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), realizada nesta terça-feira (13 de janeiro), no Teatro da instituição, em Salvador, foi marcada por um protesto organizado por estudantes, moradores de bairros periféricos e familiares de vítimas da violência policial. O ato teve como foco críticas às políticas do governador Jerônimo Rodrigues (PT), especialmente nas áreas de segurança pública, permanência estudantil e orçamento das universidades estaduais.
Segundo os manifestantes, o protesto não teve como objetivo questionar a posse da reitora, mas sim levar reivindicações diretamente ao governador, cuja presença era esperada na cerimônia. Jerônimo Rodrigues, no entanto, não compareceu ao evento.
Em entrevista ao Se Ligue Bahia, o estudante Fernando, integrante da União da Juventude Comunista (UJC) e um dos organizadores da manifestação, afirmou que o ato foi planejado após a circulação da informação de que o governador estaria presente na solenidade.
“Não era confusão, não. Era um protesto bem sério. A gente ficou sabendo que o governador estaria na posse da reitoria, porque isso é algo tradicional. Sempre que tem posse, ele costuma vir”, explicou.
Fernando relatou que a iniciativa partiu de uma pessoa sem vínculo com partidos ou coletivos políticos e ganhou força a partir da adesão espontânea de estudantes, moradores e familiares.
“Teve uma pessoa independente, que não é de organização política nenhuma, partido nenhum, coletivo nenhum, que deu a ideia de puxar a manifestação. O pessoal se empolgou e foi junto”, disse.
Ele destacou que, apesar do apoio de organizações políticas como a UJC, o protagonismo do ato foi das famílias de vítimas da violência policial.
“A maioria das pessoas não era de partido nenhum. A gente esteve ali apoiando, ajudando a organizar, mas quem falou foram as famílias. A manifestação foi construída com o protagonismo delas”, afirmou.
A Uneb está localizada no bairro do Cabula, região marcada por desigualdades sociais e por episódios recorrentes de violência policial. Durante o protesto, familiares citaram casos emblemáticos ocorridos no território e em bairros próximos, como a Chacina do Cabula, além de mortes recentes atribuídas a ações da Polícia Militar.
Em um dos vídeos enviados ao Se Ligue Bahia, uma familiar de uma vítima da violência policial, que não teve o nome revelado, faz um discurso contundente durante a cerimônia:
“Assassinos! Aplauda o governador do estado, aplaudam o homicídio do meu tio que aconteceu no bairro da Engomadeira. Há 10 anos atrás também aconteceram outros homicídios aqui”.
Na sequência, ela amplia as críticas ao governo estadual:
“Aplausos pelos assassinatos do Cabula, aplausos pelos assassinatos de Caíque, aplauso ao governador do Estado. Aplausos pelos homens que foram mortos pela Polícia Militar. Aplausos por isso aqui, ó: genocidas! É isso que vocês são! Um governo de mentira, um governo de assassinos. Governador, você é um assassino!”.
Fernando relatou que participaram do ato familiares de vítimas de diferentes bairros, como Engomadeira e São Marcos, trazendo denúncias de casos antigos e recentes.
“São casos que se repetem. Crianças, adolescentes, idosos. A gente tem mais de 20 anos de PT no governo do estado sem uma política de segurança pública eficiente. Essas mortes continuam acontecendo”, afirmou.
Além da segurança pública, o protesto também levantou pautas relacionadas à permanência estudantil e às condições estruturais da universidade.
“Muita gente consegue entrar na universidade, mas não consegue permanecer. A UNEB não tem creche, por exemplo. Quem é pai ou mãe não tem onde deixar a criança”, explicou.
Ele também criticou o modelo das residências universitárias e os sucessivos cortes no orçamento das universidades estaduais.
“As residências ficam fora da UNEB, longe do campus, sem adaptação. Uma pessoa com deficiência pode passar no edital e não conseguir nem entrar na casa. E o orçamento das estaduais vem diminuindo a cada ano”, disse.
Durante a cerimônia, os manifestantes pressionaram para que os familiares pudessem se pronunciar. Segundo Fernando, houve resistência inicial.
“A reitoria não queria deixar ninguém falar. A gente pressionou, conseguiu uma fala, depois outra, e garantiu a fala de uma terceira familiar”, relatou.
O estudante reforçou que o protesto não foi contra a posse da reitora, mas direcionado às políticas do governo estadual.
“A gente deixou bem claro: não era contra a posse da reitora. A gente estava ali para cobrar do governador o que ele está fazendo com a segurança, com a permanência estudantil e com o orçamento das universidades. Isso afasta o povo negro e pobre da universidade e, quando essas pessoas voltam para a comunidade, elas são mortas”, concluiu.
Após o protesto no interior do teatro, o grupo seguiu para a área externa do campus, em frente ao Pavilhão de Aulas Multidisciplinar (PAM), onde o ato continuou com cartazes e palavras de ordem.
Até o momento, a Universidade do Estado da Bahia (Uneb) não emitiu nota oficial sobre o ocorrido, assim como o Governo do Estado da Bahia também não se manifestou.