Inadimplência das empresas bate recorde e crédito em atraso chega a R$ 86,1 bilhões
Pequenas e médias empresas concentram 75% dos valores atrasados, enquanto microempresas tiveram alta de 45% em um ano
A inadimplência das empresas brasileiras atingiu o maior nível da série histórica no segundo trimestre de 2026. Levantamento da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), com base em dados do Banco Central, aponta que o volume de crédito com parcelas atrasadas há mais de 90 dias chegou a R$ 86,1 bilhões entre abril e junho.
O valor representa uma alta real de 24% em relação ao mesmo período de 2025, o equivalente a quase R$ 17 bilhões a mais em um ano.
Segundo a entidade, o avanço dos atrasos não ocorreu porque as empresas passaram a contratar muito mais crédito. A carteira de empréstimos cresceu apenas 2,3% no período, enquanto a proporção de operações em atraso subiu de 2,7% para 3,3%.
Para a FecomercioSP, os números refletem principalmente os efeitos defasados do período de juros elevados registrado entre 2022 e 2025. Parte dos contratos firmados naquele período começa agora a pesar no caixa das empresas.
Além dos juros, a entidade cita dificuldades enfrentadas por diferentes setores da economia, como a pressão de produtos importados sobre a indústria, o cenário de commodities e câmbio para o agronegócio e o enfraquecimento do consumo no comércio.
Pequenas e médias empresas concentram maior parte dos atrasos
Os negócios de pequeno e médio porte são os mais afetados pelo aumento da inadimplência. Apesar de representarem cerca de 43% da carteira de crédito das empresas, os dois grupos concentram aproximadamente três quartos de todo o valor em atraso.
As pequenas empresas acumulam R$ 33,4 bilhões em dívidas atrasadas, o equivalente a 39% do total. Entre as médias, o montante chega a R$ 31,7 bilhões, com crescimento de 34% em relação ao ano anterior.
Nas pequenas empresas, aproximadamente R$ 8 a cada R$ 100 emprestados estão em atraso. Entre as médias, são cerca de R$ 4,50 para cada R$ 100, enquanto a média nacional fica pouco acima de R$ 3.
As microempresas também registraram forte deterioração. O volume de crédito atrasado nessa categoria aumentou 45% em um ano, passando de R$ 6,9 bilhões para R$ 9,9 bilhões.
Já as grandes empresas concentram 48% de todo o crédito concedido e apresentam níveis de atraso inferiores à média. De acordo com a FecomercioSP, o cenário indica que o problema está mais concentrado nos negócios com menor capacidade financeira.
Inadimplência atinge recorde em 18 estados
A piora também aparece na distribuição regional. O levantamento aponta que 18 das 27 Unidades Federativas registraram, simultaneamente, o maior nível histórico de crédito empresarial em atraso.
Os maiores aumentos em 12 meses foram observados na Paraíba, com alta de 123%, no Amapá, com 73%, no Rio Grande do Sul, com 67%, e no Amazonas, com 66%.
Em São Paulo, o valor das dívidas empresariais atrasadas chegou a R$ 23 bilhões, representando 27% de todo o montante registrado no país. As cinco maiores Unidades Federativas concentram quase 60% do total.
A FecomercioSP avalia que a recuperação pode levar tempo mesmo diante de uma eventual redução dos juros. Segundo a entidade, existe uma defasagem de aproximadamente um ano entre a queda das taxas e seus efeitos sobre as contas em atraso, além de um período adicional para recomposição do caixa e retomada dos investimentos.
O levantamento considera operações com pelo menos uma parcela vencida há mais de 90 dias. Os valores foram corrigidos pela inflação e correspondem a preços de junho de 2026.