Eunápolis: Influência política na Seap facilitou atuação de facção, diz MP
O avanço da facção Primeiro Comando de Eunápolis (PCE) dentro do sistema penitenciário baiano contou com apoio político, nomeações estratégicas e omissão da Secretaria de Administração Penitenciária e Ressocialização (Seap). A informação foi revelada pelo inquérito do Ministério Público da Bahia (MP-BA), que apura o escândalo de corrupção e favorecimento envolvendo a ex-diretora do Conjunto Penal de Eunápolis, Joneuma Silva Neres.
Segundo os promotores, Joneuma usou sua relação com o ex-deputado federal Uldurico Alencar Pinto, apontado no processo como seu padrinho político, para manipular nomeações e demissões dentro da unidade. A manobra tinha como objetivo afastar servidores que se recusavam a compactuar com os privilégios concedidos a detentos ligados à facção criminosa.
Entre os profissionais desligados estão duas assistentes sociais, dois dentistas, uma psicóloga e dois advogados. Todos foram substituídos por aliados da facção, incluindo a própria irmã de Joneuma, Joceuma Silva Neres, que passou a atuar como advogada interna do PCE no presídio.
“O objetivo era exercer controle absoluto da unidade e permitir a atuação da organização criminosa dentro e fora dos muros da prisão”, afirma trecho do inquérito.
O Ministério Público afirma que a Seap, responsável por nomeações e fiscalização nas unidades prisionais do estado, falhou ao permitir que a estrutura da unidade fosse tomada pela facção mesmo diante de diversas denúncias internas. Apesar de alertas e substituições questionáveis, a secretaria manteve Joneuma no comando do presídio por nove meses, período em que ela promoveu o crescimento do poder da facção e facilitou a fuga em massa de 16 detentos, em dezembro de 2024.
Joneuma também é acusada de manter um relacionamento íntimo com Ednaldo Pereira dos Santos, o “Dadá”, apontado como chefe do PCE. Em troca de regalias, ela teria favorecido o grupo com visitas não fiscalizadas, entrada de eletrodomésticos, omissão de inspeções e acesso a ferramentas usadas na fuga.
A Seap afirmou anteriormente que “jamais compactuou com privilégios no sistema carcerário”, mas o inquérito do MP mostra que as decisões de pessoal feitas sob influência política e sem o devido controle da pasta permitiram que a facção ocupasse posições importantes dentro da unidade.
O MP-BA ainda sustenta que a permanência de Joneuma no cargo, mesmo após sinais evidentes de irregularidades, só foi possível graças à influência direta do ex-deputado Uldurico Pinto junto ao governo estadual.