Datafolha: crime organizado avança e 68 mi de brasileiros vivem com presença de facções ou milícias
O avanço do crime organizado no Brasil tem provocado mudanças profundas na rotina da população e ampliado o controle de facções sobre territórios, mercados e serviços, segundo levantamento divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
De acordo com a pesquisa, cerca de 68 milhões de brasileiros vivem atualmente em áreas com presença de facções criminosas e milícias.
Para o presidente da entidade e professor da Fundação Getulio Vargas, Renato Sérgio de Lima, o cenário atual vai além da criminalidade comum registrada nas décadas passadas.
“O momento atual que o Brasil vive é de consolidação criminal em torno de organizações que, de certa forma, têm controlado territórios, mercados, economias e, sobretudo, a vida da população. Não é simplesmente o medo do assaltante, do trombadinha, como era nos anos 70 e 80. Hoje são negócios que respondem às dinâmicas do crime organizado”, afirmou.
A pesquisa também revelou que cerca de um terço dos moradores dessas áreas acredita que o crime organizado influencia fortemente as regras de convivência nos bairros. Somando os relatos de impacto moderado ou parcial, o percentual ultrapassa metade dos entrevistados nesse recorte.
Segundo a diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Samira Bueno, o medo da violência altera hábitos e afeta diretamente a qualidade de vida da população.
“O medo da violência faz com que as pessoas alterem seus comportamentos. Elas têm sua mobilidade reduzida, o que traz prejuízos do ponto de vista psicológico e econômico, elas deixam de consumir, de circular em determinados espaços. Então, o recado aqui é que o medo importa”, destacou.
O levantamento aponta ainda preocupação da população com riscos de confrontos armados, aliciamento de familiares pelo tráfico, circulação em determinados horários e até receio de falar sobre política em meio ao cenário de violência.
Outro dado identificado foi a imposição de serviços e produtos por grupos criminosos em algumas localidades. Cerca de 12% dos entrevistados disseram já ter sido obrigados a contratar serviços como internet, TV a cabo, água, luz ou telefonia oferecidos por criminosos. Outros 9% afirmaram ter sido pressionados a comprar marcas ou produtos específicos em comércios locais.
Apesar disso, Samira Bueno avaliou que esse tipo de prática ainda está concentrado em determinadas áreas e classificou o dado como uma “notícia positiva” dentro do contexto analisado.
O estudo foi encomendado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública ao Datafolha para subsidiar debates eleitorais sobre segurança pública.
O relatório também critica o uso político do tema e defende maior cooperação entre autoridades no enfrentamento ao crime organizado.
“Segurança pública não pode ser apresentada apenas como promessa de confronto ou endurecimento penal, mas como tarefa de proteção das comunidades mais expostas e de recuperação das condições mínimas para que justiça, circulação e projeto de futuro deixem de ser condicionados pelo poder armado”, afirma o documento.
A pesquisa ouviu 2.004 pessoas com 16 anos ou mais em 137 municípios brasileiros. As entrevistas foram realizadas presencialmente, com margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%.
Informações do O Globo