Disney, Paris e milhões de reais: PF aponta atuação de servidores do Banco Central em favor de Vorcaro e Banco Master
Relatórios da Polícia Federal (PF) tornados públicos nesta sexta-feira (11) apontam que dois servidores afastados do Banco Central, Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana, teriam atuado de forma recorrente em benefício dos interesses do empresário Daniel Vorcaro e do Banco Master.
Segundo a investigação, os servidores teriam fornecido orientações técnicas, revisado documentos encaminhados ao próprio Banco Central, compartilhado possíveis informações internas e participado de encontros fora dos canais oficiais. No caso de Paulo Sérgio, a PF classificou a atuação como tendo assumido “contornos de verdadeira assessoria paralela”.
Paulo Sérgio ocupava o cargo de chefe-adjunto do Departamento de Supervisão Bancária (Desup). Conforme os documentos, ele teria orientado Vorcaro sobre encontros com o então presidente do BC, Roberto Campos Neto, além de auxiliar em questões relacionadas à aquisição do Banco Will pelo Master e pela Reag Investimentos, em fevereiro de 2024.
A PF também aponta que Paulo Sérgio teria tentado modificar regras de enquadramento de entidades ligadas à Previc e, em 2025, revisado uma minuta encaminhada pelo Banco Master ao Departamento de Supervisão Bancária.
Pagamentos a servidor entram na investigação
As apurações também identificaram mensagens relacionadas a supostos pagamentos destinados a Belline Santana.
Em dezembro de 2023, Fabiano Zettel teria comunicado Vorcaro sobre um primeiro pagamento ao servidor. As mensagens indicam que o empresário sugeriu que Leonardo realizasse o repasse, com posterior reembolso.
O assunto voltou a aparecer em janeiro de 2024 e, posteriormente, em outubro do mesmo ano. Na ocasião, Zettel teria informado que parte de um valor enviado a Leonardo Palhares seria destinada a Belline. O montante mencionado nas conversas foi de R$ 760 mil.
Segundo a PF, as tratativas sobre pagamentos continuaram ao longo de 2025. A investigação também aponta que Vorcaro teria realizado pagamentos a Belline durante uma viagem à França.
Em uma das conversas, Zettel cobra Vorcaro sobre um pagamento e afirma que Belline estaria cobrando. Em outra mensagem, explica que o dinheiro passaria por uma empresa antes de chegar ao destinatário.
Viagem à Disney também é investigada
No caso de Paulo Sérgio, os investigadores encontraram elementos que apontariam para o possível custeio de uma viagem dele e de familiares para a Disney.
A defesa do servidor, porém, afirma que ele próprio arcou com passagens, hospedagem, ingressos, moeda estrangeira e despesas realizadas com cartões.
Os advogados também sustentam que, no dia do embarque, Vorcaro teria oferecido uma vaga remanescente em um pacote de acesso prioritário aos parques da Disney e da Universal. Segundo a defesa, a oferta foi aceita mediante pagamento de US$ 8 mil em espécie nos Estados Unidos.
A defesa afirma ainda que Paulo Sérgio desconhecia um eventual pagamento de US$ 38 mil feito por Vorcaro ao agente de viagens Leonardo Giunchetti e que não participou, autorizou ou presenciou a transação.
PF aponta pressão sobre o Banco Central
Documentos encontrados no celular de Daniel Vorcaro também são citados pela PF como indícios de que o empresário teria recebido informações consideradas confidenciais de integrantes do Banco Central e pressionado o órgão.
No início de 2025, estava em negociação a compra do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB) por R$ 3,5 bilhões. A operação dependia de uma série de autorizações do Banco Central, incluindo questões relacionadas ao aumento de capital, reorganização da instituição e aprovações concorrenciais.
STF retira sigilo de parte da investigação
As novas informações vieram a público após o ministro André Mendonça retirar, na quinta-feira (10), parte do sigilo das investigações relacionadas ao Banco Master, atendendo a uma determinação do presidente do STF, Edson Fachin.
A decisão ocorre antes da sessão pública prevista para terça-feira (15). O plenário do Supremo deverá analisar o relatório da PF que aponta Alexandre de Moraes como interlocutor de Daniel Vorcaro, além do pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR) para que o documento seja anulado.