Além da Fé, Lavagem do Bonfim é um espaço para a leitura do cenário político baiano
A Lavagem do Bonfim, uma das maiores celebrações de fé da Bahia e do Brasil, volta a ocupar o centro do debate político em 2026, ano marcado por eleições que vão escolher os próximos presidente da República, governador, senadores, deputados federais e estaduais. Muito além do cortejo religioso que reúne milhares de fiéis entre a Conceição da Praia e a Colina Sagrada do Senhor do Bonfim, a festa também reserva um espaço de leitura do cenário político e de exposição das principais lideranças do estado.
A presença de governadores, prefeitos, parlamentares e pré-candidatos deixou de ser episódica e se transformou em tradição, especialmente em anos eleitorais, quando cada gesto, discurso e imagem ganha peso estratégico. Em entrevista ao Se Ligue Bahia, o cientista político João Vitor Vilas Boas, afirmou que o evento ocupa um papel singular no calendário político da Bahia.
“A Lavagem do Bonfim ocupa um lugar singular no calendário baiano ao mesclar religiosidade popular, tradição histórica e exposição pública das lideranças políticas. Embora seja um evento essencialmente religioso, ela se consolida como o primeiro grande “comício” informal do ciclo eleitoral, reunindo oposição e situação dentro do mesmo metro quadrado”, disse.
Em 2026, essa característica se intensifica. Com o país às vésperas de uma disputa eleitoral decisiva, a festa passa a funcionar como um verdadeiro laboratório político. “O evento passa a ser um espaço de leitura de cenário, no qual o tamanho das comitivas, o grau de acolhida popular e a facilidade de circulação no cortejo operam como indicadores informais de capital político, capazes de antecipar tendências e possíveis desgastes. Além disso, declarações de agentes políticos de ambos os grupos são sempre aguardadas com ansiedade”, destacou Vilas Boas.
O cientista ressaltou que embora não tenha poder de definir resultados eleitorais, a Lavagem do Bonfim é vista como um termômetro relevante para os movimentos que se desenham ao longo do ano. “Em um contexto de eleições estaduais e nacionais decisivas em outubro, esses sinais advindos da Lavagem ganham ainda mais importância”, afirmou.
Neste ano, o cenário político baiano chega com dois campos definidos, liderados pelo governador Jerônimo Rodrigues (PT) e pelo ex-prefeito de Salvador e pré-candidato ao governo do estado, ACM Neto (União Brasil). Para ambos, a presença no cortejo tem significados igualmente estratégicos. O cientista traçou uma análise política de como ambos os pré-candidatos ao cargo maior do estado vão protagonizar na Lavagem do Bonfim.
“Para Jerônimo e o grupo governista, a Lavagem funciona como um termômetro de popularidade do governo. É a oportunidade de medir o impacto da sua gestão e mostrar força popular na busca da reeleição com o desenho de uma chapa “puro-sangue”, envolvendo os dois ex-governadores, Rui Costa e Jaques Wagner. A presença do governador, o tamanho da sua comitiva e o grau de acolhida popular ajudam a responder a pergunta central: Jerônimo conseguirá converter a força da máquina e os prefeitos em apoio massivo para o pleito deste ano”, destacou.
Contando com a força política do maior partido político do país, ACM Neto aproveitará a oportunidade de reafirmação e de demonstração de vitalidade eleitoral. “Fora de mandato, ele precisa usar momentos como esse para demonstrar vitalidade e força política. A Lavagem serve como teste de visibilidade, articulação e capacidade de mobilização. Não é apenas estar presente, mas ser percebido e aclamado como o líder de oposição que projeta uma renovação diante dos quase 20 anos de domínio petista na Bahia”, destacou Vilas Boas.
O cientista João Vitor Vilas Boas também destacou a importância do evento para o prefeito de Salvador, Bruno Reis (União Brasil), que assume papel central. “Reeleito na capital com quase 78% dos votos válidos, ele surge como principal cabo eleitoral de ACM Neto e protagonista tanto no cortejo quanto no processo eleitoral de 2026. “Principal cabo eleitoral de Neto, [Bruno] venceu a última eleição na capital com quase 78% dos votos válidos e tem a missão de manter a hegemonia carlista dentro de Salvador, sendo também um protagonista no cortejo e, sobretudo, no ciclo eleitoral de 2026”, completou.
A dimensão política da Lavagem do Bonfim não se limita à Bahia. Em ano de eleição presidencial, o evento também atrai olhares nacionais. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que tentará a reeleição, não confirmou presença na edição deste ano. Em contrapartida, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, que se coloca como pré-candidato à Presidência da República, sinalizou participação, ampliando ainda mais o caráter político da celebração.